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É muito comum a quem nos visite no Carmelo pela primeira vez sentir um impacto diante das grades e tenha a sensação de que a monja viva presa, não seja livre.

A liberdade não é, como muitos pensam fazer tudo o que quer. Não!

Mas o que é a liberdade?

A nossa vida é feita de escolhas, temos à nossa frente dois caminhos: ou viver segundo a carne ou segundo o espírito. Só a verdade nos torna livre.

Na epistola de S Paulo aos Filipenses cap. 3 temos um exemplo belíssimo: “Aquelas coisas que eu considerava como lucro, considerei-as como perdas por amor a Cristo. Sim, na verdade tudo tenho por perda, perante o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor, pelo qual renunciei a todas as coisas e as considero como lixo, para ganhar a Cristo e ser encontrado nEle. Somente faço uma coisa: esquecendo-me do que fica para trás e avançando para as coisas que estão adiante, prossigo para a meta, para alcançar o premio da celeste vocação de Deus em Cristo Jesus”.

A liberdade, portanto tem um preço, requer renúncias. Decisões definitivas na verdade são as únicas que não destroem a liberdade, mas lhe criam a justa direção, possibilitando seguir em frente e alcançar algo de grande na vida. Ser livre é escolher sempre o bem.

Ser totalmente de Deus, entregar-se a Ele e ao seu serviço por amor, é a vocação, não só de alguns eleitos, mas de todo cristão: consagrado ou não, homem ou mulher... Cada qual no próprio estado de vida.

A proposta do Carmelo não é retirar a pessoa do seu contexto social para que ela possa encontrar-se com Deus e ser contemplativa, mas deixar que, no comprometimento com as realidades terrestres possa experimentar a presença viva de Deus, deste Deus que se revela também na coflitividade dos contrastes.Embora Teresa saliente a importância do encontro com o Senhor no silêncio e na solidão, já na plenitude de sua união com Deus, escrevia: “Entre as panelas está o Senhor” e “Marta e Maria devem sempre andar juntas”. Ele se comunica por muitos caminhos. Não está só nos “recantos”.

“O problema não está sempre no excesso de atividades – assim fala Papa Francisco em Evangelii Gaudium -, mas, sobretudo, nas atividades mal vividas, sem as motivações adequadas, sem uma espiritualidade que empregne a ação e a torne desejável”. Por isso exorta: “Permanecei em Jesus! Permanecei ligados a Ele, dentro dele, com Ele, falando com Ele”.

O nosso mundo sofre não só uma crise econômica, mas uma crise moral, a crise existencial. Perdeu-se o sentido da vida e quando se perde o sentido da vida se escraviza.

Temos aí a palavra de Santa Teresa: “Vossa sou, para vós nasci. Que mandais fazer de mim?” “Para que nascemos?” “Para Vós!”. Para viver de acordo com um projeto que Deus acariciou desde toda a eternidade, para dar-nos aos demais, porque tudo que não se dá se perde.

Estas palavras mas nos esclarecem de como a nossa vida deve se orientar em absoluta obediência e disponibilidade ao plano de Deus: o que Ele quer para nós, seja alegria, seja tristeza, seja saúde, seja enfermidade. Total abandono nas mãos de Deus, sem nos deixar condicionar por nada, livre de tudo.

Nós, monjas não estamos condicionadas a nada: a forma de nos vestir sempre a mesma - portanto, livres quanto à moda; livres quanto à vaidade - santa Teresa recomendou às suas filhas viverem em total esquecimento de si. Somos livres quanto às exigências do corpo – a alimentação frugal, lembramos as nossas origens – vimos daquela casta de eremitas do Monte Carmelo que muitas necessidades deviam passar; quanto ao descanso e as exigências da natureza – temos um horário que nos educa, nos ajuda a nos libertar delas.

Quando assumimos a vida Consagrada um novo mundo vai se descortinando: é uma aventura no caminho para a própria interioridade; é nos dado viver as verdades reveladas em grau elevado o que nos situa na experiência da Suma Verdade que é Deus. Isto nos faz livres. Para entender melhor isto, remeto ao capítulo 40 da autobiografia de santa Teresa ou Livro da Vida.

O nosso ser é de uma dignidade e beleza inalienáveis

A imagem usada por Teresa para descrever a pessoa humana, é a de um castelo de diamante ou de cristal; o homem, criado para ultrapassar-se é morada de Deus. A condição de miséria não faz parte do castelo, é algo que está do lado de fora, podendo sujá-lo ou escurecê-lo, porém sem poder mudar e nem alterar a sua natureza. Isto significa que o que nos identifica é a descoberta da grandeza e formosura do próprio castelo interior e o que lhe dá consistência é uma Presença. Valor infinito do ser humano diante de si próprio!

Essas verdades conhecidas pela fé e reconhecidas pela experiência vão forjando as consequências existenciais para o ser humano e para o místico. Tais consequências nos são apresentadas por Teresa como um desafio, como uma verdadeira motivação para não renunciar a percorrer esta fascinante aventura da autêntica humanização.

Nestas condições podemos lançar o belo desafio do grande Apóstolo Paulo: “Quem me separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? Estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem nenhuma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus Nosso Senhor”.

No final da vida, somente restará em nossas mãos aquilo houvermos dado, transformado em algo de eterno. Uma poesia de Tagore apresenta um mendigo que narra a sua história:

“Ia eu mendigando de porta em porta, ao longo da rua da aldeia, quando despontou ao longe uma carruagem dourada. Era a carruagem do filho do rei. Pensei comigo mesmo: ‘É a grande chance da minha vida!’ Sentei-me e pus no chão, bem aberta minha sacola, na esperança de ganhar generosa esmola, sem precisar nem pedi-la.Ao contrário, pensei que as riquezas iriam chover pelo chão ao meu redor.

Qual não foi, porém minha surpresa quando, chegando perto de mim, a carruagem parou, o filho do rei desceu e, estendendo a mão direita, me disse: ‘O que tens para me dar?’

Como...um rei estender a mão a um mendigo!? Confuso, hesitante, peguei da sacola um grão de arroz, um só, o menorzinho, e ofereci ao príncipe.
Mas, que tristeza; de noitinha, mexendo na sacola, encontrei um grãozinho de ouro, um só. Chorei amargamente porque não tivera a coragem de lhe ter feito o dom de tudo”. (R. Tagore. Gitanjali, 50)

Tudo que não se dá se perde, porque estando nós destinados a morrer, morrerá conosco tudo aquilo que conservamos até a última coisa, ao passo que aquilo que se dá é subtraído à corrupção e, por assim dizer, despachado de antemão para a eternidade.

Monjas Carmelitas
Carmelo de Santos