No dia 22 de junho, depois de alguns meses sem pisar no território santo do Carmelo de São José em Santos, me deparei com uma capela reformada, o sentimento que me vinha não era de reconhecimento da obra realizada, mas um convite a saborear a delicadeza com que Deus nos convida a subir ao monte dà santidade.
Tomado pelo ímpeto da beleza desta capela conventual, durante o recreio com as monjas me propus a no dia seguinte, na homilia da Santa Missa, fazer uma partilha sobre as luzes que me vieram ao contemplar esta pérola preciosa no meio da agitada cidade de Santos. Falando em pérolas, quando fiz essa proposta de pregar tendo por inspiração a beleza deste pequeno céu, não havia nem sequer lido a Palavra que a Igreja nos convidava a meditar. Para minha surpresa, a Liturgia da Palavra do dia 23 de junho nos alimentava com o pão da Palavra do Evangelho de Jesus segundo Mateus 7,6.12-14. Nosso Senhor, nesta perícope, nos fala sobre a pérola dada aos porcos e a porta estreita. 
Sendo assim, provocado por estas duas belas imagens, pérola e porta, contemplamos o convite de Deus para vivermos à santidade, através de um caminho inscrito nas paredes desta Casa de Oração.
Olhar para o Alto: o primeiro impacto cravado na alma é quando sem mesmo adentrar a capela, quando ousamos olhar para o alto, vemos o imponente forro de madeira, que intencionalmente ou não, de qualquer modo providencialmente, nos faz recordar da mística imagem da Barca de Pedro. Nesta cidade, que além de ser litorânea, tem o maior porto do Brasil, Deus pela beleza arquitetônica, nos lembra que ao adentrar na Igreja, nós na verdade estamos embarcando na Barca de Pedro, partindo da margem da velha vida refém do pecado original e dos pecados pessoais, para que na agitação do mar do mundo, cheguemos a outra margem, o céu.  
Batismo, a Porta do Céu que se abre: passando pela porta principal, dirigindo os olhos para o primeiro vitral do lado direito, somos agraciados com a cena do Batismo de Jesus, e como não lembrar que ao descer as águas do Jordão, Nosso Senhor santificou as águas batismais, e nesta fonte de graça fomos lavados, remidos e se fez ouvir a voz do Pai a nos chamar de filhos amados; o céu se rasgou e ficamos repletos do Espírito Santo, pois como Templos do Espírito Santo, começamos a ser moldados por Ele, que nos vivificando, opera a obra de santificação em nós.
Cruz, nossa única esperança: deixando correr os olhos para o segundo vitral, vemos nossa amada Santa Teresinha agarrada a cruz do Carmelo, nos chama a contemplar no Crucificado a plena manifestação de Seu Amor Misericordioso, pois manchados pelos pecados que nos ferem, encontramos esperança de salvação no Amor Misericordioso do Senhor, que nos lava e devolve as vestes batismais no Precioso Sangue em cada confissão. 
Amor que nos marca e educa: depois de um grande esforço por deixar o olhar ir mais adiante, no terceiro vitral nos impacta a transverberação de Santa Teresa D’Avila, ferida na alma pelo Amado, marcada no coração pelo Verbo Eterno, para ser essa ágil pena nas mãos do Senhor para nos propor um Caminho de Perfeição, cuja bússola que o guia é a Palavra de Deus, nos provocando a ser almas de vida interior, cultivando pela oração mental, especialmente conduzida Palavra da Salvação pelas vias: Purgativa, Iluminativa e Unitiva. 
Puros de Coração verão a Deus: antes de adentrar ao cume do Monte, para contemplar a glória de Deus, somos convidados a imitar as virtudes de nosso pai e senhor São José, e uma se destaca: a pureza de coração. Para adentrar na sala do trono, temos que purificar o coração das más inclinações e das duvidosas intenções. 
Verdadeira Imagem: subindo os degraus do altar, ou melhor, o monte calvário, olhando para alto, acima da porta que nos acolhe na barca de Pedro, vê-se a Sagrada Face, a imagem que Nosso Senhor quis deixar gravada naquele singelo pano, Face adorável, face amada e Face desejosa pela nossa consolação. 
Vou consolar Sua Face: só um coração petrificado não anseia por consolar a face desfigurada de nosso Salvador. E olhando do altar em direção a Face de Cristo, discretamente, quase imperceptível estão quatro vitrais menores que os demais, e sem grandes adornos artísticos, mas todos marcados pela Cruz Vazia.
Nestes quatro vitrais, como que sentimos um convite da Sagrada Face para consola-lá através da prática da penitência e da mortificação, pois como bem nos recorda São Josemaria, a cruz vazia, sem a presença do Crucificado, na verdade é a minha cruz, que espera pela minha decisão de abraçá-la e amá-la. A primeira cruz, poderíamos dizer, que seria a cruz da aceitação dos sofrimentos e contrariedades que Deus permita que eu enfrente, um convite a resignação e a oferta. A segunda cruz já começa a brilhar as mortificações, os sofrimentos voluntários buscados por amor a Jesus e para purificação de minha alma; e aqui vislumbramos as penitências corporais. A terceira cruz é um convite a mortificar os pensamentos, que muitas vezes nos assombram e assustam. E a quarta e última cruz, a penitência dos sentimentos, que nos provoca a voltarmos às baixezas do coração do velho homem, quando ainda éramos inimigos de Deus.  
Por fim, e na verdade, literalmente chegamos ao fim último de nossa vida, pelo Coração Imaculado de Maria, adentramos ao Sagrado Coração de Jesus, não como meros visitantes, mas nos unindo a Ele numa união como que esponsal com o Amado, para que com Ele chegar à outra margem de nossa história: CÉU.